quarta-feira, 23 de setembro de 2009

A VERDADE DO POVO


por: Boris Orloff, jornalista sem diploma, escritor sem talento, médico sem registro e tabagista sem cigarro.

O documentário etnográfico produzido pela Quase Entertainment Corporation, Os Indicados do Povo, traz à tona um assunto sério e extremamente delicado: os músicos capixabas. Houve uma era sombria e tenebrosa em que o estado aclamava-se como detentor de uma identidade própria, fruto da miscigenação de pescadores bêbados e índios antropófagos com imigrantes e condenados europeus (menos a nação Pomerana, que preferia não se misturar com etnias menos higiênicas). Ufanar os valores da terrinha tornou-se um tema constante entre os formadores de opinião e tudo aquilo que estimava ou preservava algum tipo de rito ou tradição cultural deveria ser realizado. Eu mesmo participei dessa campanha: como sou descendente de russos, passei a tomar vodka diariamente, o dia todo, resgatando assim as tradições de meus ancestrais.

Naquele tempo toda e qualquer manifestação cultural ou artesanato feito com materiais medievais era sinônimo de identidade do ES e por isso deveriam ser representados em músicas, peças de teatro, filmes e poemas produzidos no estado. Como um surto psicótico, essa época passou (ainda que permaneça adormecida na alma capixaba, aguardando o momento certo para retornar a seu posto). A memória está encarregada de guardar os espólios colhidos nessa batalha entre casacas e moquecas, é seu dever nos proteger de um futuro apocalíptico lembrando-nos sempre das mazelas sofridas no passado.

Essa também é a obrigação do vídeo da Quase, exibido em uma premiação totalmente dedicada aos artistas capixabas, o Prêmio Omelete Marginal. A banda premiada (os bons rapazes do Solana) e todos os presentes ficaram perplexos e depressivos ao constatarem através dos ponderados depoimentos dos entrevistados que a preferência popular era outra, além do fato de seus nomes não terem sido mencionados no vídeo. Os Indicados do Povo é um simbolismo concretista sobre o verdadeiro consumo musical no estado e registra a opinião de quem realmente deve ser considerado em nossas terras: o povo. É um produto que serve para nos lembrar de que todas as memórias do nosso passado cultural, tal qual aquele carnaval em que você bebeu demais, se cagou e foi em casa trocar de roupa, mas voltou pro rock com a mesma cueca, devem ser reprimidas.