domingo, 13 de setembro de 2009

Vídeo-arte, porra!



Por Boris Orloff, poeta maldito, crítico implacável e devedor imperdoável.

Por ser um gênero marginal o vídeo-arte nunca foi um produto muito comercializável, embora detenha um público cativo e animado (além de homossexual). O conceito “arte” fica evidente em A Tempestade já na escolha da câmera lenta e cambaleante, e também no movimento invertido: puro lirismo narrativo. A lentidão expressa o ritmo psicológico dos não-atores, incapazes de acompanhar a velocidade do mundo caótico que os rodeia. Já o movimento inverso qualifica a impossibilidade de reverter nossos erros, nossas falhas, nossa ressaca – a metáfora das ondas estabelece esse paralelo brilhantemente, sempre voltando para dentro do mar.

Ao protagonista cabe um papel ainda mais metafórico, proibido de vestir a bermuda da sociedade capitalista dominante. Ele não consegue se adaptar à vestimenta padrão do homem comum, algumas vezes por conta dos coadjuvantes que não permitem sua inserção nessa sociedade (eles riem, debocham e humilham o herói como se ele não fosse apto a participar do mesmo grupo social), outras vezes por conta do mar revolto – revoltado pelo sistema, revoltado pela desigualdade e revoltado principalmente por todo xixi e cocô que avassaladoramente poluem os oceanos: o mar é o próprio desenvolvimento sustentável.

Tratando-se de um vídeo que suscita a dúvida há ainda mais um enigma: o rapaz de camisa amarela que surge já ao final da narrativa. Presume-se que seja um símbolo da não-adesão dessa situação cruel, completamente separado da realidade pós-moderna que governa os homens, um delírio de lucidez momentânea que caminha contrário às normas pré-estabelecidas para a humanidade. Na verdade ele só queria fazer amizade com aquelas pessoas, mas não sabia como.