sábado, 6 de fevereiro de 2010

ADEGARD BARBOSA E A LEI VELHO CAGADO


Por Boris Orloff, crítico de documentários etnográficos xenófobos, repórter radiofônico mudo e ex-pirata caolho.

Quem pôde ver Os Abraços Partidos, filme de Pedro Almodóvar que peca pela falta de viadagem, vai se identificador muito com esse verdadeiro lutador: Adegard Barbosa, o documentarista do caos, o sonhador da realidade, o olho da justiça social. No filme de Almodóvar um cineasta cego remonta brilhantemente sua última obra enquanto relembra os últimos anos de visão – e principalmente dos peitinhos da Penélope Cruz. A grande diferença aqui é que Adegard não só monta seus documentários sem enxergar, como também escreve, produz, dirige e grava. Uma verdadeira lição de pró-atividade e acúmulo de salários.

Adegard, amigo íntimo de outros cegos famosos como Steve Wonder, Alexandre Pires e Mr. Magoo, nunca superou sua maior deficiência, a vontade de fazer documentários. Desacreditado, viveu anos produzindo suas obras sem qualquer tipo de incentivo cultural (fora a entrada gratuita em transporte público), tendo que usar recursos próprios para realizar suas denúncias audiovisuais. Jogado na lama e abandonado à própria sorte (até mesmo por Glauber, seu labrador vesgo), ele desapareceu da vida pública, ressurgindo apenas anos mais tarde quando tentava escapar do exílio no playground da pracinha – atitude que comprova a impossibilidade de deter seu gênio.

Suas imagens realmente são incisivas e desorientadoras, descobri isso quando vomitei sobre minha quarta ex-esposa no cinema, uma sensação extrema e angustiante induzida pela poética visual de suas narrativas e por minha labirintite. Não é por menos que a Lei Velho Cagado de Incentivo à Cultura tenha resgatado um artista dessa envergadura, um batalhador que não pode ser impedido por qualquer barreira, mesmo que seja a fronteira entre o desespero e a beirada da calçada. Como bem sabemos os verdadeiros talentos são assim mesmo: não precisam ver o que fazem para fazer arte.