terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

ALMERINDO DE JESUS E A LEI VELHO CAGADO


Por Boris Orloff, crítico de duplas sertanejas, ex-repórter do quadro “Caça aos Bois” do Globo Rural e pecuarista esportivo.

A célebre frase: “Se os campos tornarem-se cidades, as cidades perecerão. Mas se as cidades tornarem-se campos, as cidades crescerão” confirma a vocação do humilde povo rural para o desenvolvimento sustentável de seu país. Acostumado às mazelas sociais o homem do campo luta diariamente contra a negligência cultural imposta pelo governo, procurando alternativas nas tradições populares para saciar sua fome de arte. Afoxé, forró, cachaça, duelo de facão e zoofilia estão entre as principais atividades encontradas pela caipirada para ludibriar o tédio na roça.

A sociedade ingenuamente acredita que as pessoas vivem no campo por vontade própria, como se alguém em sã consciência realmente optasse por morar onde os vícios e as diversões são mais escassos ou mesmo inexistentes. Há quem encare o êxodo rural como o abandono de um sonho, mas na verdade trata-se de um ato de esperança. Esperança é exatamente o motor que move o artista marginal Almerindo de Jesus à cidade grande, este brasileiro batalhador percorre quilômetros para expressar uma das mais nobres heranças culturais legadas pelos nossos antepassados: o estupro. Uma antiga tradição popular trazida para as populações indígenas pelos primeiros colonizadores portugueses, praticada em celebrações comunitárias como ato de confraternização entre raças diferentes – um belo gesto de miscigenação e perpetuação genética à força.

Linguagem artística derivada do incesto, o estupro é um misto de happening, teatro de interação e coreografia improvisada, técnicas que envolvem diversos modos de expressão e representação. A performance geralmente termina quando um dos participantes chega ao clímax, levando o outro a choros convulsivos em uma esplendorosa dramatização cênica. É uma pena que o Brasil ainda não reconheceu essa manifestação como patrimônio cultural, o que força homens como Almerindo a se submeter ao lavoro rural e até a buscar recursos na capital para continuar produzindo seus espetáculos e sustentar sua família – principalmente porque a cada nova apresentação ela cresce ainda mais. Mas a Lei Velho Cagado veio para mudar esse panorama, dando oportunidade para que o artista que há dentro de cada um possa se libertar das amarras das elites morais desse país urbanista e mostrar um pouquinho de sua graça – mesmo que a sociedade contraia alguma DST com isso.