quarta-feira, 2 de março de 2011

BASEADO EM FATOS REAIS



Em uma típica high school americana, nosso herói, um jovem nerd pobre, de óculos, pouquíssimo atraente e sem habilidades sociais, sofre dividido entre o desespero para perder a virgindade e o amor verdadeiro que sente pela líder de torcida local, a namorada do capitão do time de futebol, um rapaz rico, forte e de família tradicional.

Mas de repente, uma inexplicável invasão de robôs vindos do futuro interrompe a normalidade da escola.

A amada de nosso protagonista se revela na verdade uma agente secreta da CIA, que na verdade era uma agente dupla, pois era na realidade mesmo um robô disfarçado. Fingindo-se de líder de torcida durante sete anos nos computadores da biblioteca do Departamento de Educação Física, o setor menos frequentado e portanto o mais seguro da escola, ela comandou a conspiração digital-robótica, que usa rabanetes gigantes como armas, aterrorizando estudantes e funcionários. Os robôs pretendem dominar o tráfico internacional de armas e animais silvestres, numa grande conspiração com detalhes técnicos demais pra ser compreendida.

Ela acaba, porém, se revoltando pelo fato de ser um robô sem sentimentos, e quer conseguir sonhar, amar, derramar uma lágrima. Apaixona-se então pelo nosso herói ao se impressionar com suas habilidades em Corel Draw, Page Maker e videogames. Os dois trocam um longo beijo, ficando noivos logo em seguida.

As famílias escandalizadas se posicionam contra o casamento entre um homem feio e um robô, fazendo com que os apaixonados não vejam outra alternativa a não ser usar uma máquina do tempo desenvolvida pelo misterioso e sábio mascote da escola, um orangotango vietnamita que fala, se masturba, voa, joga suas fezes nas pessoas e usa um colete de couro e chapéu listrado. O simpático e sensual macaco é um animal adotado pela diretoria da escola por ter nascido portador do vírus do HIV, o que gerou todo esse conflito mundial.

O par, em busca de tranquilidade para desfrutar de seu amor sem fronteiras, viaja de volta no tempo para o Velho-Oeste, onde preparam seu casamento num divertido clima de comédia romântica, viajando pelo deserto, hospedando-se em motéis de beira de estrada, fazendo guerra de balões d’água e derrubando comida um no outro.

O casal usa novamente a máquina do tempo desenvolvida pelo macaco para buscar Jesus, que comandaria a cerimônia. Sem motivo aparente, o Salvador aparece em forma de desenho animado. Trapalhão e acostumado a ser tratado de forma diferenciada, Jesus fica hospedado por uma semana na casa da noiva, que sendo um robô, não compreende os ataques de prima-dona do Senhor, dando início a deliciosas enrascadas, com cenas de tortas na cara, flatulências e paródias de outros filmes.

O esperado sermão de Jesus no dia do casamento é nada mais que um caótico devaneio sobre o amor entre homens e máquinas, natal, violência, guerra de Tróia versus Sparta, fanatismo religioso na Idade Média, nazismo, sequestro de aviões por terroristas árabes e patinação no gelo.

Esse clima baixo-astral faz com que a celebração seja interrompida com o nosso protagonista tendo espasmos e flashbacks de sua participão na guerra do Vietnã (que pelo fato de terem viajado ao passado, são na verdade paradoxais flashbacks do futuro). Em uma dessas lembranças, um atraente anão vietnamita prisioneiro de guerra, mesmo grotescamente ferido, lhe dá uma massagem sensual, numa bela cena sexy à beira do rio ao pôr-do-sol.

No entanto, um repentino close no gigantesco pênis ereto do nosso herói faz com que a cena evolua rapidamente para um vulgar sexo explícito gay, com longas tomadas em corpos oleosos e penetração anal. Toques grosseiros de coprofagia, zoofilia e sado-masoquismo seguido de sufocamento completam a orgia, com a participação de um estranho macaco.

Ao voltar do flashback de seu passado mas que na verdade se dá no futuro, nosso herói percebe que o libidinoso vietnamita na realidade já estava misteriosamente morto antes mesmo do coito, e que o macaco era nada menos que o futuro mascote da escola, o orangotango portador do vírus do HIV.

Descobrindo-se aidético, atormentado pela culpa de ter feito sexo com um cadáver homossexual, abandonado por um decepcionado Jesus e pela noiva robô, nosso herói sofre um derrame cerebral devido à intensa carga emocional do episódio, iniciando uma batalha judicial sem precedentes para ser indenizado por sua desgraça.

Ao mesmo tempo, ele precisa praticar artes marciais dia e noite com seu novo parceiro, um exigente advogado e mestre de kung fu: o esperto cão policial pequinês George, que o treinará com métodos não-convencionais para combater com violência o preconceito dos ignorantes cowboys, índios e vampiros que vivem no local e não o aceitam como ele é.

Após quase dois dias de treinamento e malhação, nosso herói se recupera totalmente do derrame, além de esculpir seu corpo, passar a usar lentes de contato e se transformar em um atraente e bronzeado mestre de kung fu. Infelizmente ainda aidético.

No baile da cidade, acontece a luta final, mas a festa é interrompida por uma pancadaria paralela generalizada. Nosso protagonista apanha o tempo todo, o pequinês fica tragicamente tetraplégico tentando proteger seu pupilo, e nosso herói se prepara para apenas no fim usar seu único golpe que realmente funciona: algo relacionado à transmissão de seu vírus, após mais um breve flashback do Vietnã.

No entanto, a violência é interrompida pelo assassinato de uma jovem de 17 anos, cometido por um lobisomem psicopata serial-killer marxista possivelmente possuído pelo demônio, ou talvez uma mula-sem-cabeça montada por um Frankenstein. Começa então um envolvente suspense psicológico recheado de sustos desnecessários.

Munidos de tochas de fogo, nosso herói e toda a cidade – cowboys, índios e vampiros – se unem numa bela demonstração de tolerância das diferenças em prol de um objetivo maior: o assassinato brutal de um suspeito sem direito a julgamento. Também são acionados o xerife alcoólatra corrupto semi-aposentado local, os X-Men, o exército e um padre ex-boina verde que acha que é psicólogo, com a ajuda de um simpático menino de 10 anos afro-americano que, mesmo sofrendo de amnésia, insiste em participar, além do incansável pequinês policial paralítico. Uma intrigante interpretação das pistas leva a uma perseguição implacável de carruagens e trens em alta velocidade em um labiríntico armazém abandonado, que acaba em troca de tiros com balas de prata, super poderes mutantes, golpes marciais, cenas em que alguém passa no último segundo num portão fechando, ações judiciais, explosões, exposição excessiva à luz do sol, exorcismos, morte cruel do monstro e a descoberta da verdadeira amizade.

Entretanto, em mais uma espetacular reviravolta dos acontecimentos, o monstro revela-se na verdade um bondoso e inocente escoteiro, e o verdadeiro assassino é o capitão do time de futebol, que havia também havia voltado no tempo, escondido na máquina atrás de sua ex-namorada robô líder de torcida agente secreta traidora da CIA. Religioso e de família tradicional, ele havia assassinado a mãe do menino afro-americano, uma criança fruto de um relacionamento pecaminoso com o padre. O assassino é perdoado pela justiça, mas o pai da criança bastarda é condenado à pena de morte, e em seus últimos momentos cospe na cara do nosso herói, balbucia palavras desconexas sobre amor e frases feitas sobre acreditar em seus sonhos, além de deixar um mapa do tesouro e um talismã: um pedaço quebrado de espelho. Nosso protagonista não dá atenção aos delírios do padre e acaba esquecendo por completo do pedaço de espelho e do mapa em seu bolso, até porque é recompensado com muito dinheiro pela prisão do criminoso.

Os envolvidos finalmente aprendem o valor da tolerância e do amor sem pré-julgamentos. Mas a verdadeira mensagem, em meio a personagens aidéticos e filhos proibidos, é o uso do preservativo, num oferecimento de “Jontex: um pouco mais cara, mas melhor do que pagar 20% do seu salário de pensão alimentícia.” O ex-jogador Romário faz uma pequena aparição no momento do merchandising.

Mas quando a harmonia parecia finalmente reinar, o pequinês paralítico acaba falecendo tragicamente, após capotar de carro em uma ribanceira. Nosso herói, atormentado e milionário, segue o caminho doloroso do autoconhecimento se afundando nas drogas, no jogo e nas más companhias, perdendo todo o seu dinheiro e endividando-se com gangues mafiosas que lutam pelo controle local da venda de bebidas, cogumelos, prostitutas e livros de poesia. Viciado, falido e piranheiro, ele não tem outra saída a não ser o fundo do poço: arrumar um emprego.

O trabalho é de professor em uma escola barra-pesada para jovens feios porto-riquenhos que se vestem com camisas quadriculadas abotoadas até o botão de cima. A princípio, os alunos socialmente excluídos não reconhecem a autoridade do nosso herói, mas acabam ganhando uma valiosa lição de vida num desfecho surpreendente: todos, inclusive o professor, são presos por porte de drogas, montam uma banda na cadeia e passam a dialogar em forma de música e dança, tentando superar o vício e fugir com o sonho de fazer sucesso e roubar um banco. Belas canções e coreografias complexas ganham vida, numa inesperada explosão musical com participação especial de Lindsay Lohan, Jon Bon Jovi, Sandy & Júnior, Padre Marcelo Rossi, Zagallo, Eliana, Sabrina Sato, Eri Johnson, Dedé Santana, Oscar Schmidt, algum filho do Chico Anysio e Alexandre Lima.

Mas eis que em meio a mais uma bela canção, nosso protagonista se dá conta de que tudo aquilo é um delírio provocado pelos cogumelos e pelo avançado estágio de sua Aids: todos os seus comparsas eram na verdade multiplicidades de sua própria personalidade, numa comovente mensagem contra a injustiça social.

Num turbilhão de sua confusão mental e sem distinguir ficção da realidade, nosso protagonista acorda percebendo que tudo até agora não passou de um sonho, e na verdade MESMO ele é uma mulher pirata vítima de um motim seguido de naufrágio, tentando sobreviver em uma ilha deserta, grávida de um alienígena, fruto de uma perigosa e excitante relação extra-conjugal. Mas a parte de estar com Aids ainda é verdade.

Segue uma longa documentação da fauna local, interrompida pelo choro do bebê metade alienígena metade pirata em trabalho de parto.

O complicado nascimento prematuro do medonho bebê interrompe a vida neste paraíso. A criança é criada durante 14 anos por tribos selvagens e dinossauros que viviam na ilha. Porém, quando resgatados por uma nave espacial, a irresponsabilidade por parte da mãe do bebê híbrido alien que só se comunica por grunhidos de dinossauro causa um desconforto diplomático interestelar: ela fumava derby durante a gravidez.

É detonada uma guerra nuclear pelo espaço, que termina com a escravização da raça humana seguida da disseminação de um vírus mortal na Terra. Os únicos sobreviventes são a nossa protagonista, por já estar com Aids e não se importar com o novo vírus, e um divertido dinossauro, que, entretanto, acabam entrando numa bela de uma fria: por uma sequela bizarra do HIV e do holocausto nuclear, eles acabam trocando de personalidade um com o outro, causando uma tremenda confusão onde se metem em várias enrascadas. Nossa heroína, no fim, se elege presidente do mundo e acha em seu bolso o tal talismã-pedaço-quebrado-de-espelho e o mapa do tesouro presenteados pelo padre.

Mas afinal, o que era sonho e o que era real? Haverá uma continuação da trama? Haverá interesse por parte dos patrocinadores?

Confusa sobre sua verdadeira identidade de pirata-dinossauro-aidético-presidente-do-mundo, nossa heroína olha atrás do espelho, onde se lê: “O espelho é pra você não se esquecer de quem você é”.

Ela olha fixamente para o horizonte em reflexão. Será?

Fim.