terça-feira, 15 de março de 2011

A FÚRIA FAMÍLIA DO JOVEM YURI



Por Almeida, pós-doutorando em funk periférico

A ascensão meteórica do jovem Yuri na cena do funk pré-adolescente da região metropolitana de Belo Horizonte vem chamando a atenção dos especialistas eruditos do estilo. Como estudioso do Funk Capixaba, mais precisamente de alguns distritos de Santa Maria de Jetibá, evitei me aventurar num campo semântico tão distante do meu, mas a relevância cultural de Yuri é tão clara que é impossível ignorá-lo.

O pequeno MC parece trazer novos ares ao estilo, já cansado de temas que envolvem invariavelmente troca de tiros em favelas e sexo anal em periferias. A rebeldia de Yuri, diante do divórcio de seus pais, se manifesta sob a forma de um amor pela avó, que ele declara abertamente em sua música, enquanto ainda tem idade para amar parentes sem que isso pegue extremamente mal.

E este é o tapa de luva escondido na falsa inocência de Yuri. Enquanto o funk carioca não encontra mais espaço para intensificar suas orgias líricas, esta criança, sem dizer um palavrão, consegue ser infinitamente mais polêmica, cafajeste, sem-vergonha e sem Jesus. O tabu maior, que as balas sem destino e pênis sem camisinha do funk carioca tanto tentam atingir, mas o qual nunca sequer arranharam, é agarrado com as duas mãos e destruído por Yuri, como se fosse um pokémon. Sim, este gênio da nossa música fez um funk sobre uma relação incestuosa com a própria avó.

Os gritos de “A Porra da Buceta é Minha”, da Gaiola das Popozudas, ou de “Orgia de Traveco”, da
UDR, não chegam nem perto da ousadia de um doce “Vó, eu amo você”, de Yuri. Então toma esse incesto na sua face. Profundo. Incisivo. Devastador. As águas foram dividias e a cicatrizes abertas. Yuri corta e mutila a sociedade com sua poesia e não há como fingir que nada aconteceu.